Emoção, memória e reconhecimento marcaram a posse solene de Ivan Lira como desembargador federal do Tribunal Regional Federal da 5ª Região – TRF5, nesta segunda-feira (17/08). A cerimônia, bastante prestigiada, celebrou a chegada de um juiz cuja trajetória profissional e acadêmica foi construída com base na humanidade, na coragem, na sabedoria e no rigor jurídico. E, curiosamente, sobre o chão de três estados que compõem a Justiça Federal da 5ª Região (JF5): Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco.
Marcaram presença os ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Gurgel de Faria e Ribeiro Dantas, a governadora do Estado do Rio Grande do Norte (RN), Fátima Bezerra, desembargadores e desembargadoras federais do TRF5, integrantes da advocacia, do Ministério Público Federal (MPF) e da Força Áerea Brasileira, juízes e juízas federais e servidores e servidoras da JF5, além de familiares e amigos do empossado.
A solenidade foi conduzida pelo presidente do TRF5, desembargador federal Roberto Machado. Coube aos desembargadores federais Manoel Erhardt e Magnus Delgado, respectivamente decano da solenidade e benjamim da Corte, guiar o novo desembargador ao Plenário da Casa.
Ivan Lira, que já havia tomado posse administrativamente em 08/07, foi promovido pelo critério de merecimento para a vaga criada pela Lei nº 15.393/2026, que ampliou a composição do TRF5.
Uma trajetória marcada pela Justiça
Na saudação em nome do Tribunal, o desembargador federal Edilson Nobre resgatou momentos históricos do ano em que Ivan Lira nasceu, 1956, e destacou as influências familiares, acadêmicas e profissionais que marcaram sua formação. Ao lembrar a relação do magistrado com a Paraíba, onde nasceu, e o Rio Grande do Norte, onde construiu grande parte de sua carreira, afirmou: “Dos rincões potiguares não se afastou. Não que isso apague a naturalidade paraibana e o amor pela terra de José Américo. Pode-se definir que Ivan Lira é paraibano de nascimento, porém potiguar por identificação telúrica”.
Nobre também destacou a atuação de Lira para além dos autos, ao recordar um episódio em que o então juiz determinou o fim dos maus-tratos sofridos por um homem detido em uma delegacia próxima ao local onde ocorria uma audiência. “A sua missão foi desincumbida de forma exemplar, especialmente pelos sólidos fundamentos que apresentava em suas sentenças. É de se destacar um fato que, justificadamente, fez com que ele devesse atuar fora dos autos. Realizava Ivan uma audiência, quando, de um prédio vizinho, onde funcionava uma delegacia de Polícia Civil, escutavam-se gritos. O juiz, imediatamente ao adentrar no imóvel contíguo e ao constatar que o cidadão ali detido se encontrava a sofrer maus-tratos, determinou que tal agressão cessasse”, recordou.
Além das leis
Em nome da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a desembargadora federal emérita e advogada Margarida Cantarelli também saudou o novo integrante da Corte. Ela destacou dois casos que, em sua avaliação, expressam a atuação de Ivan Lira como magistrado.
Um deles foi a sentença, posteriormente confirmada pela Primeira Turma do TRF5, que reconheceu, pela primeira vez no Brasil, o direito à pensão estatutária de um companheiro homossexual. “Era um desafio, exigia coragem, mas Sobral Pinto já reconhecera que a advocacia e a magistratura não são uma atividade para covardes”, destacou.
Cantarelli também lembrou a concessão de habeas corpus, impetrado por uma organização não governamental, em favor de 22 africanos que haviam embarcado clandestinamente em um navio, sido lançados ao mar e resgatados por pescadores nas proximidades do Recife. Contra eles havia ordem de prisão. “Este é o homem que é capaz de enxergar além das leis, a dignidade da pessoa que espera que a Justiça a alcance e lhe dê o que lhe foi devido”.
Mestre na vida
Em nome do MPF, o procurador regional da República Marcelo Alves ressaltou a trajetória profissional e pessoal de Lira, com quem trabalhou no Rio Grande do Norte. “Hoje é o dia de homenagearmos, todos nós, um dos mais facetados e fecundos magistrados da Justiça Federal brasileira. No meu caso, o faço em nome do Ministério Público Federal, da Procuradoria Regional da República da 5ª Região e, de modo pessoal, como companheiro de trabalho no Rio Grande do Norte, amigo e testemunha da vida e da carreira do agora desembargador federal Ivan Lira. Ivan, com seus saberes, é daquele que, no dia a dia, naturalmente de fato nos deleita. Professor por titulação, é, antes de tudo, mestre na vida”, afirmou.
Uma carta de propósitos
Em seu discurso, Ivan Lira agradeceu as homenagens e explicou que escolheu 17 de agosto para a solenidade em referência à Batalha de Casa Forte, ocorrida em 1645. “Ponto alto da Insurreição Pernambucana, que buscava e conseguiu a expulsão dos Holandeses, em peleja capitaneada por Vidal de Negreiros, Felipe Camarão, Fernandes Vieira e Henrique Dias. Ali se moldava um sentimento crucial para a moldagem da nacionalidade brasileira. O primeiro dos heróis veio da Paraíba, o segundo do Rio Grande do Norte e os dois últimos de Pernambuco. Respectivamente, o estado onde nasci, o estado onde vivi e fiz carreira e o estado que agora me acolhe”, lembrou.
O novo desembargador afirmou que não trazia um discurso, mas uma carta de propósitos. “Venho de Cuité, cidade posta no alto da serra, que lhe dá nome. Entre os simples e decentes, foi lá a minha primeira geografia e, mais que isso, a minha primeira compreensão do Universo. Ali aprendi as primeiras letras e recebi as lições mais importantes, que não estavam escritas nas folhas escolares. Foi em Cuité, também, que aprendi o sentido da família. Entrei nesse ambiente pelas honradas mãos de Manoel Erhardt e Magnus Delgado, conduzindo muitos valores do passado. Minha família, meus professores e alunos, a palavra empenhada e a noção do limite. Bens antigos, mas, nem por isso superados”.
Ao falar sobre a atividade jurisdicional, Lira ressaltou que, por trás de cada processo, existem pessoas e histórias. “Processos são feitos de pessoas. Por trás de um número, existem liberdade, patrimônio, família, trabalho, esperança, às vezes medo e, frequentemente, sofrimento. Do lado de dentro da mesa de julgar deve estar alguém consciente de que o poder que exerce não lhe pertence; é do povo, pertence à cidadania, é estoque da democracia, é ferramenta de respeito à República. O dever de julgar não se exerce pelo medo e não pode ser apanágio da arrogância”, concluiu.
Ao final da solenidade, o mais novo desembargador federal do TRF5 foi homenageado com uma placa, pela Associação dos Servidores da Justiça Federal do Rio Grande do Norte.
