Refinaria e distribuidoras não compareceram à audiência pública desta terça, 24 para debater a alta nos combustíveis na capital potiguar
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo do Rio Grande do Norte (Sindipostos-RN), Maxwell Flor, usou a tribuna da Câmara Municipal de Natal nesta terça-feira, 24 de março, para trazer uma série de esclarecimentos sobre os elos da chamada cadeia dos combustíveis, que vai do poço à bomba e mostrar, com números oficiais, que as revenda (o último elo antes do consumidor) acabaram repassando aos preços finais reajustes menores do que aqueles que receberam.
A audiência pública, proposta pelo vereador Kleber Fernandes, presidente da Comissão de Defesa do Consumidor, reuniu representantes do Procon Municipal, do Ministério Público Estadual, do IPEM RN e do próprio Sindipostos RN. Da cadeia produtiva do combustível, no entanto, não houve representantes: nem a Brava Energia, operadora da Refinaria Clara Camarão — que chegou a indicar um representante e não compareceu —, nem as 12 distribuidoras que atuam no estado. “Estão com medo de quê?”, questionou o vereador, classificando a ausência como “desrespeito e afronta” ao consumidor e às instituições.
O entregador de pizza
Maxwell Flor começou sua fala com uma metáfora direta. “A gente é o entregador da pizza. Não produzimos, não compramos, só entregamos. Estamos no final da cadeia.”
Com base em dados oficiais da ANP e da própria Refinaria Clara Camarão, o presidente do Sindipostos-RN demonstrou que, no período mais crítico do choque de preços — de 19 de fevereiro a 19 de março de 2026 —, a refinaria reajustou a gasolina A em R$ 1,31 por litro. Os postos de Natal, segundo a pesquisa semanal da ANP, repassaram ao consumidor apenas R$ 0,95 por litro.
Ou seja: os revendedores absorveram R$ 0,36 por litro na própria margem. No diesel S-500, a diferença foi ainda mais expressiva: a refinaria avançou R$ 2,24 por litro, enquanto os postos repassaram R$ 1,23 — comprimindo R$ 1,01 em margem operacional para amortecer o choque ao consumidor final.
A origem geopolítica do choque
A explicação para o ciclo mais intenso de reajustes da história recente do RN está no Oriente Médio. Em 28 de fevereiro de 2026, EUA e Israel atacaram o Irã, provocando o bloqueio do Estreito de Ormuz — por onde circula mais de 20% de todo o petróleo produzido no mundo. O barril, que iniciou o ano na faixa de US$ 60, chegou a picos de US$ 117 em 19 de março, um salto de até 75% em apenas 22 dias. Foi o maior choque de oferta desde o furacão Katrina.
Maxwell Flor foi preciso ao explicar o elo que conecta Ormuz a Natal: a Refinaria Clara Camarão, da Brava Energia, não refina gasolina nem diesel para o mercado local — ela importa e revende. Por isso, o impacto de qualquer variação do mercado internacional é imediato. “Aumentou lá, vai aumentar aqui para a gente”, resumiu. A isso se soma a desvalorização do real, que amplifica os custos, já que o petróleo é cotado em dólar.
Tributação também pesa
A composição do preço da gasolina, apresentada com dados da ANP referentes à semana de 15 a 21 de março — quando o litro médio em Natal era de R$ 7,47 —, revelou que a tríade “Distribuidora, fretes e postos” controla apenas 21% do preço final. Os 79% restantes são definidos antes de o produto chegar ao posto: refinaria (36,1%), etanol obrigatório por lei federal (12,7%), ICMS estadual (cobrado no formato AdRem, no valor atual de R$ 1,57 que equivale, atualmente, a 21% do preço médio nas bombas) e PIS/COFINS/CIDE federais (9,2%). “A maior parte do preço é definida antes do produto chegar ao posto”, reforçou Maxwell Flor, identificando nas esferas federal e estadual as principais alavancas de alívio imediato ao consumidor.









