O custo médio da construção civil desacelerou em julho no Rio Grande do Norte, mas permanece em trajetória de alta quando considerados os resultados acumulados no ano e nos últimos 12 meses. Segundo o Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi), divulgado nesta terça-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço médio do metro quadrado chegou a R$ 1.862,67 no Estado, após uma variação de apenas 0,28% em relação a junho.
O resultado representa uma forte desaceleração em relação ao mês anterior, quando o custo havia aumentado 2,12%. Apesar do alívio na variação mensal, a construção potiguar acumula alta de 6,46% no ano, a quinta maior entre os estados brasileiros, e de 7,96% nos últimos 12 meses.
O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Norte (Sinduscon-RN), Sérgio Azevedo, considera positivo o resultado de julho, mas ressalta que o dado precisa ser interpretado com cautela. “É importante deixar claro que houve uma redução no ritmo de aumento, e não uma redução dos custos”, explica.
Segundo o presidente do Sinduscon-RN, as empresas continuam trabalhando sobre uma base de custos elevada, acumulada ao longo dos últimos meses. “As construtoras continuam operando sobre uma base de custos significativamente mais elevada, resultado de aumentos que vêm sendo acumulados ao longo dos últimos meses”, disse.
O Sinduscon-RN considera necessário acompanhar os próximos meses antes de concluir se houve ou não uma mudança de tendência. “O importante agora é verificar se essa desaceleração terá continuidade e se conseguiremos entrar efetivamente em um período de maior estabilidade dos custos”, afirmou.
O economista Ricardo Valério, presidente e atual superintendente do Conselho Regional de Economia do RN (Corecon-RN), também diz que a forte desaceleração de julho deve ser analisada com cautela. Ele avalia que fatores sazonais, as oscilações dos combustíveis e a variação cambial podem ter contribuído para o comportamento do indicador. “Não acreditamos que tenhamos novas quedas ao mesmo nível atípico que tivemos agora no mês de julho”, avaliou. Ricardo Valério destaca ainda que o Estado já acumula alta de 6,46% no ano e de quase 8% em 12 meses.
Segundo o Sinduscon-RN, a pressão sobre as construtoras não está concentrada em um único insumo. A cadeia da construção envolve materiais industrializados, equipamentos, energia, transporte e mão de obra, fazendo com que aumentos em diferentes etapas se acumulem durante a execução dos serviços. “Mais do que apontar um único insumo, o que preocupa é justamente a persistência de aumentos em várias etapas da cadeia produtiva”, afirmou Sérgio Azevedo.
Ricardo Valério acrescenta que os custos financeiros também representam um obstáculo para o setor. A construção civil depende de volume expressivo de crédito e, por isso, é diretamente afetada pelo patamar elevado da taxa básica de juros. “Como a construção civil é uma atividade que demanda um volume expressivo de crédito, os custos das altas taxas de juros, como a nossa Selic ainda muito elevada nos 14%, pesam muito nos preços da construção civil”, afirmou.
O economista também aponta o impacto dos fretes e da instabilidade dos preços do petróleo, influenciados, segundo ele, pelos conflitos no Oriente Médio.
Tendência é que alta nos custos chegue aos consumidores
Para o Sinduscon-RN, as empresas conseguem absorver parte dos aumentos apenas durante determinado período. Com a persistência da pressão sobre os custos, uma parcela tende a ser incorporada aos preços de novos empreendimentos e obras.
O cenário se torna mais complexo porque o setor enfrenta simultaneamente custos elevados de construção, juros altos e crédito mais caro. Na avaliação do sindicato, essa combinação reduz as margens das empresas, dificulta a viabilidade econômica de projetos e pode adiar novos lançamentos e investimentos.
“De um lado, aumenta o custo de produzir; do outro, fica mais difícil para o consumidor financiar a aquisição do imóvel e para as próprias empresas financiarem novos investimentos”, explicou.
Do custo total registrado em julho, R$ 1.123,76 correspondem aos materiais, enquanto R$ 738,91 são referentes à mão de obra. O componente de trabalho permanece entre os menores do país: o custo da mão de obra no RN é o terceiro menor do Brasil, atrás apenas de Alagoas e Sergipe.
Para Ricardo Valério, entretanto, esse cenário poderá sofrer alterações caso o mercado imobiliário mantenha a expansão dos lançamentos. “Com aumento de novos lançamentos de empreendimentos, notadamente na região metropolitana de Natal, poderemos ter aumentos em função da demanda por mais trabalhadores a médio prazo”, avalia.
A desaceleração potiguar ocorre em um cenário semelhante no mercado nacional. Em julho, o Índice Nacional da Construção Civil (Sinapi) variou 0,44%, segundo o IBGE.
Fonte: Tribuna do Norte
