La Fontaine, poeta francês do século XVII, contou-nos a seguinte fábula: numa época em que todos eram livres, e os homens só colhiam frutos; o cavalo e o cervo tiveram um grande desentendimento na floresta.
Como o cervo era muito mais rápido que o cavalo, este pediu auxílio ao homem para alcançá-lo, no intuito de se vingar. Para facilitar o trabalho, o homem pôs sela, cabresto e rédeas no animal, e saíram, ambos, atrás do lépido inimigo.
Depois de intensa caçada, a dupla conseguiu, enfim, eliminar o cervo, oportunidade em que o cavalo disse ao seu parceiro:
– Serei eternamente agradecido por este favor. Leva a caça e nós voltamos às nossas vidas.
– Não, cavalo. Gostei do nosso trabalho conjunto. Podemos fazer muito mais. De agora em diante, você ficará comigo e a meu dispor.
A moral da fábula de La Fontaine é que, em busca da vingança, os esforços e as perdas podem sobejar, e muito, os ganhos obtidos, como a do cavalo, que trocou a vendita miúda por sua liberdade.
O que se vê na atualidade, como na época da fábula, é uma polarização extrema na defesa de ideologias conflitantes, gerando grande animosidade entre os antagonistas em todos os palcos físicos e virtuais.
No entanto, em uma democracia, é imprescindível saber lidar e conviver com os contrários, pois, não obstante o objetivo de todos seja o de alcançar a felicidade, o meio para fazê-lo é pessoal, íntimo e particular, segundo os valores e dores de cada indivíduo.
É através do embate de ideias que a humanidade avança, ora conservadora, ora progressista, sendo este pêndulo o móvel que dá direito e voz às inúmeras minorias que formam o caleidoscópio brasileiro.
Por outro lado, a extrapolação do debate público é um desserviço ao regime democrático, principalmente quando descamba para agressões vulgares, pessoais, injustas e despropositadas, as quais somente têm o condão de gerar mágoas e rancores que, como péssimas conselheiras, fomentam o sentimento de vingança.
Tal qual o cavalo e o cervo, aquele que, sob qualquer pretexto, alimenta-se de vingança, embota o discernimento e envenena a alma, impelindo-o a deixar de perseguir objetivos para perseguir pessoas que discordam do pensamento corrente.
Ocorre que, como a história tem ensinado, a prática de calar vozes dissonantes no Estado possui um custo impagável, seja porque flertou com o autoritarismo e perdeu a liberdade, seja porque se excedeu no liberalismo e perdeu a ordem e o progresso.
A vingança não é sentimento inerente ao Estado, às instituições e aos homens públicos, uma vez que estes não são o fim em si mesmos e não representam a si próprios, mas, sim, devem tutelar os diversos pensamentos da sociedade e propiciar meios para que todos, independentemente de raça, credo ou condição social, possam desenvolver suas potencialidades.
Portanto, antes que seja tarde demais, há de se ensarilhar armas e buscar o caminho do convívio harmônico, pois o respeito aos pensamentos dissonantes deve ser premissa basilar do regime democrático.
E que o exemplo do cavalo e do cervo seja somente uma fábula distante de um dos maiores poetas franceses.